Análise Estrutural · SAP2000 · ETABS · CSiBridge

Combinar casos lineares e não lineares: o que os combos podem (e não podem) fazer

Um guia prático sobre o âmbito e as limitações das Load Combinations e dos Load Cases, para o trabalho do dia a dia de quem dimensiona estruturas.

Leitura técnica · CSI Portugal

A pergunta aparece em quase todos os modelos: posso somar estes casos num combo, ou tenho de juntar as cargas dentro do próprio Load Case? A resposta depende de uma única ideia, a sobreposição, e de saber quando ela deixa de ser válida.

Nos programas CSI, a forma como organizamos as cargas determina se os resultados podem ser somados depois da análise ou se têm de ser combinados antes. Confundir os dois caminhos leva a resultados aparentemente corretos mas fisicamente errados. Vamos clarificar a fronteira, com dois casos práticos e os cuidados a ter quando se usam envolventes para design.

01Três níveis que não se misturam

Antes de combinar seja o que for, convém ter presente a hierarquia que o SAP2000, o ETABS e o CSiBridge partilham. São três conceitos distintos, e a maior parte dos enganos nasce de os tratar como se fossem o mesmo.

1
Load Pattern A distribuição espacial de uma ação: DEAD, LIVE, WIND, QUAKE. Por si só não produz qualquer resultado, é apenas a definição da carga.
2
Load Case Define como o pattern é aplicado e como a estrutura responde: estático ou dinâmico, linear ou não linear, em que sequência. É aqui que se produzem resultados.
3
Load Combination Soma ou envolve os resultados de vários Load Cases (ou de outros combos). Opera sobre resultados já calculados.

O ponto crítico está no salto do nível 2 para o nível 3. Um combo trabalha sobre resultados que já existem. E só faz sentido somar resultados quando esses resultados são, de facto, somáveis.

02O princípio da sobreposição

Toque nos separadores para ver porque é que um caminho é válido e o outro não.

Pode somar livremente nos combos

Mesma matriz de rigidez, resultados aditivos

Todos os casos lineares assentam na mesma matriz de rigidez. Por isso os seus resultados podem ser sobrepostos: o efeito de DL mais o efeito de LL é igual ao efeito de DL + LL. Um combo do tipo 1.2·DL + 1.6·LL é perfeitamente legítimo.

Esta é a base de quase todo o dimensionamento corrente: definem-se os casos lineares em serviço, e majoram-se e combinam-se ao nível dos combos.

Não some os casos num combo aditivo

A resposta depende do percurso de carga

Numa análise não linear a rigidez muda ao longo do carregamento, e a resposta depende da ordem por que as cargas entram. O resultado de DL mais o resultado de LL deixa de ser igual ao resultado de DL + LL. A sobreposição falha.

A regra do manual CSI é direta: os resultados de análises não lineares não devem ser sobrepostos. Em vez disso, todas as cargas que atuam em conjunto devem ser combinadas dentro do próprio Load Case não linear. E os casos não lineares podem ser encadeados para representar sequências de carregamento.

Exceto no tipo Envelope, as combinações devem em regra aplicar-se apenas a casos lineares, porque os resultados não lineares não são, de forma geral, sobreponíveis. Princípio enunciado no manual de referência da CSI

03Os cinco tipos de combinação

Quando trabalha com resultados lineares, o tipo de combo que escolhe muda o significado do resultado. Toque para expandir cada um.

Cada caso é multiplicado pelo seu fator de escala e somado. É o tipo natural para cargas estáticas e para as combinações de dimensionamento do tipo 1.2·DL + 1.6·LL.

Usar em: cargas gravíticas e estáticas, combinações regulamentares de casos lineares.
Somam-se os valores absolutos dos casos, gerando automaticamente valores positivos e negativos em cada secção. Conservador, porque assume que os máximos coincidem.

Usar em: cargas laterais quando se pretende uma estimativa do lado da segurança.
Calcula a raiz quadrada da soma dos quadrados dos resultados, com valores positivos e negativos. Apropriado para combinar contributos que não ocorrem necessariamente em fase, como direções sísmicas.

Usar em: combinação de direções de carga lateral, resultados modais ou direcionais.
Avalia o máximo e o mínimo em cada secção. Guarda dois valores por ponto, e o caso que dá o máximo pode ser diferente do que dá o mínimo. É o único tipo que pode incluir casos não lineares. Atenção: não representa um estado de equilíbrio único.

Usar em: cargas móveis e qualquer situação em que interessa o valor extremo. Ver os cuidados na secção 06.
O máximo combinado é a soma dos máximos positivos de cada caso contributivo, e o mínimo combinado é a soma dos mínimos negativos. Resolve com um só combo o que de outro modo exigiria centenas de permutações de carga em xadrez.

Usar em: carregamentos alternados (pattern loading) de sobrecargas em pisos e tabuleiros.

04Caso prático: uma combinação não linear

Não linear · 1.2 DL + 1.6 LL com P-Delta

Edifício com efeitos de segunda ordem

Pretende-se a combinação 1.2·DL + 1.6·LL num pórtico onde os efeitos P-Delta são relevantes. A tentação é correr DL e LL como casos não lineares separados e somá-los num combo. Está errado: os resultados não lineares não se sobrepõem. A forma mais exata, que respeita a sequência e a não linearidade das cargas majoradas, é esta.

  1. Criar um Load Case não linear DL em que o pattern DL é aplicado já com o fator 1.2.
  2. Criar um Load Case não linear LL em que o pattern LL é aplicado com o fator 1.6.
  3. Indicar que o caso LL usa a rigidez no fim do caso DL (continue from state at end of nonlinear case). A sobrecarga entra sobre a estrutura já deformada pela carga permanente.
  4. Fazer o design a partir do caso LL, que carrega o efeito acumulado da sequência.

Se a sequência não for importante mas a não linearidade sim, basta um único caso não linear com DL a 1.2 e LL a 1.6 aplicados em conjunto. E quando a não linearidade é pequena, o método clássico de casos lineares em serviço somados num combo continua a ser razoável. O atalho Convert Combos to Nonlinear Cases automatiza a conversão, gerando casos não lineares P-Delta.

Dica para edifícios

Para P-Delta em edifícios, o caminho prático é um único caso P-Delta inicial sob a carga gravítica, e correr depois as restantes análises (estática, modal, espectro, time-history) de forma linear sobre essa rigidez. Só quando a interação do esforço axial com uma combinação lateral específica é determinante é que se justifica um caso não linear P-Delta dedicado a essa combinação.

05Caso prático: uma combinação linear

Linear · Espectro de resposta

Análise sísmica por espectro de resposta

O espectro de resposta é um caso linear, mas perde sinal e fase: para cada modo calcula-se um máximo, e esses máximos não ocorrem em simultâneo. A combinação faz-se em duas etapas antes de chegar ao combo final.

  1. Combinar os contributos modais com CQC (que tem em conta o amortecimento e iguala o SRSS quando o amortecimento é nulo), ou com SRSS.
  2. Combinar as direções, por exemplo SPECX e SPECY, por SRSS ou pela regra 100/30.
  3. Adicionar o resultado sísmico à carga gravítica num combo do tipo Linear Add.
  4. Deixar o programa gerar as permutações de sinal e de interação no design, em vez de as construir à mão.

Como os resultados do espectro são sempre positivos, o programa associa os valores extremos ao caso estático em todas as combinações de sinal possíveis. É isto que garante uma verificação correta da interação P-M-M, que de outro modo se perderia.

06Cuidados com as envolventes no design

Não atribua um combo Envelope como combinação de design

Uma envolvente guarda o máximo e o mínimo por secção, e esses extremos podem vir de casos diferentes. Não representa um estado de equilíbrio único nem um conjunto de esforços concomitantes. Dimensionar um pilar para o axial máximo de um caso com o momento máximo de outro caso, que nunca ocorrem ao mesmo tempo, quebra a correspondência necessária à interação P-M-M e produz um dimensionamento irrealista.

Os programas CSI tratam cada combinação separadamente, geram um design para cada uma e só depois envolvem o conjunto de resultados. Uma envolvente definida à mão sobre combinações de design gera capacidade para um carregamento extremo que não existe.

A recomendação da CSI é clara: não envolver combinações de design. Adicionam-se todas as combinações individualmente e deixa-se o software dimensionar e reportar em cada secção, identificando o caso governante. As combinações geradas automaticamente por cada algoritmo de design coexistem com as definidas pelo utilizador, e em qualquer dos casos o design assenta sempre em combinações, nunca diretamente em Load Cases.

07Devo combinar no combo ou no Load Case?

Selecione o que se aplica ao seu modelo. A recomendação atualiza-se em tempo real.

Verificação rápida

A sua análise envolve algum destes comportamentos?

Nenhum selecionado. Pode usar Load Combinations à vontade. A sobreposição é válida porque todos os casos lineares partilham a mesma matriz de rigidez. Use Linear Add para gravíticas, SRSS ou Absolute para laterais, Range Add para carregamentos alternados.

08Onde aprofundar

Este artigo cobre o essencial, mas o manual e a base de conhecimento da CSI têm muito material detalhado sobre cada um destes pontos: hiperstático de pré-esforço, sequências de construção evolutiva, parâmetros de P-Delta, métodos de combinação modal e direcional, e o comportamento das envolventes no dimensionamento. Vale a pena consultá-los.

CSI Knowledge Base Artigos sobre Load combination, Nonlinear, Staged construction, Response-spectrum e envolventes de design. Wiki CSI (legado) FAQ de combinações de carga e notas técnicas de versões anteriores, ainda úteis.
CSI Analysis Reference Manual

Dentro do programa, em Help, Documentation, Manuals. Veja em particular os capítulos de Load Cases, Load Combinations, Nonlinear Static Analysis, P-Delta Analysis, Response-Spectrum Analysis, Staged Construction e Hyperstatic load cases.

Resumindo

CSI Portugal · Análise e dimensionamento de estruturas